Muitos ingredientes nessa “salada”

Muitos ingredientes nessa “salada”

Gostaria de comentar com vocês um movimento que tenho observado em várias empresas clientes, em especial as indústrias de pequeno e médio portes que usam energia intensivamente em seus processos produtivos. A questão é a retomada de projetos de sustentabilidade, em especial os dedicados a redução de emissões atmosféricas no pós pandemia, focando em médio prazo a redução da pegada de carbono.

De fato, boa parte dos investimentos na área de meio ambiente foram descontinuados durante a pandemia de Covid19. A necessidade de sobrevivência das organizações em período de baixas receitas mostrou que os conceitos de sustentabilidade foram colocados à prova, prevalecendo a sustentabilidade do negócio. No caso de empresas com atuação na área de serviços, de forma mais intensa, tiveram que se reestruturar para sobreviver. Uma parcela dessas, infelizmente, não suportou a espera e teve que paralisar ou encerrar as atividades. As mais robustas financeiramente  e aquelas com maior diversidade de produtos de consumo conseguiram manter as atividades, mas não passaram ilesas. Em praticamente todos os casos os projetos de redução de emissões e outras ações para a redução da pegada de carbono foram mantidos em espera e até descontinuados. Esse comportamento claramente revelou que frente a crises econômicas fortes e, de forma inédita no caso da pandemia, os investimentos em sustentabilidade foram colocados em segundo plano, tendo a cautela como justificativa. Isso aconteceu não somente no Brasil, mas também em outros países, inclusive os que tinham programas institucionais de redução de emissões, incluindo-se aí os compradores de créditos de carbono.

Nos últimos meses, com a superação do pior da pandemia, o assunto tem voltado a pauta, ainda que timidamente. Muitas das empresas clientes já dão sinais de retomada das discussões internas, algumas com senso de urgência inclusive. O temor se intensificou frente as  evidentes consequências das mudanças climáticas que quase diuturnamente estão presentes na imprensa internacional. Corroboram fenômenos que, outrora raros, hoje estão mais frequentes, como inundações, calor, frio e secura extremos em vários pontos do planeta.

A retomada das discussões, resumidamente, foca a escolha de qual caminho a seguir : manter ou revisar os planos de ação elaborados antes da pandemia?

Para poder contribuir, creio que há três aspectos que devam ser levados em consideração: a superação das etapas mais críticas da pandemia de Covid19 – novo arranjo produtivo, a visão atual do público de interesse – sociedade, consumidores e fornecedores –  e a nova geopolítica de energia, em especial os combustíveis mais utilizados pela indústria.

Embora os três aspectos devam ser considerados na escolha de investimentos em sustentabilidade sem dúvida, o mais importante é a visão atual do público de interesse. Os efeitos climáticos do aquecimento global estão sim causando preocupação na sociedade. De forma muito mais intensa do que no passado, esses aspectos já fazem parte do processo de decisão do consumidor na hora de adquirir um bem ou um serviço. Dentre os novos critérios de escolha estão o ciclo de vida total dos produtos, sobretudo matéria  prima e energéticos utilizados e a mão de obra empregada – pessoas. Trata-se da chamada “pegada social”, um conceito originalmente surgido na Índia  que considera não somente a pegada de carbono, mas também a sustentabilidade social nas cadeias produtivas.

São muitos esses critérios, mas nos parecem até lógicos, dado o turbilhão de evidências de alterações do clima mundial, não acham?

Deixe um comentário

Your email address will not be published.